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Mostrando postagens de março, 2026

Miopia da Convicção

Outro dia, observando o movimento de uma maré baixa, dei por mim pensando no que resta de uma rocha após anos de confronto com o mar. Ela não cede por vontade, mas o atrito a molda; torna-se menor, mais lisa, talvez mais palatável ao toque de quem caminha pela areia, mas já não guarda as arestas que a definiam no início. Perde a aspereza — e, com ela, algo que talvez fosse mais do que forma: um traço da sua identidade original.   Muitas vezes, a vida nos coloca diante desse mesmo oceano. De um lado, há a urgência de não ceder. É a postura quase mineral de quem decide que o erro, se vier, será um erro autêntico — um tropeço em pernas próprias. Há uma dignidade solitária em manter as arestas, em aceitar o isolamento como o pedágio necessário para não se tornar um estrangeiro sob a própria pele. O erro, nesse caso, deixa de ser acidente e se transforma em cicatriz de fundação, carregada com um orgulho silencioso por sabermos exatamente como foi inscrita em nós.  Mas há um can...