Pular para o conteúdo principal

Postagens

Artigos

A Loucura Que Não Me Deixa

Ao longo da vida, vou perdendo colágeno, neurônios, cabelo. A pele cede, a memória falha, o espelho passa a ser menos generoso. Tudo em mim parece ter prazo de validade, como se o tempo cobrasse pedágio em cada etapa do caminho. Há perdas discretas, quase imperceptíveis, e outras que se anunciam sem pudor, obrigando-me a aceitar que já não sou o mesmo.  Mas há algo que resiste com uma lealdade desconcertante. A loucura — essa mistura de teimosia, contradições, obsessões íntimas e manias — não se deixa levar pelo desgaste. Pelo contrário, amadurece comigo. Quando o corpo se desfaz aos poucos e a razão aprende a negociar com a realidade, ela permanece ali, fiel sentinela do que fui e do que insisto em ser.  Talvez porque a loucura não seja exatamente um defeito, mas um resto indomável da minha humanidade. É ela que me impede de me tornar uma versão totalmente polida, resignada e previsível. No fim, quando quase tudo se perde, é reconfortante pensar que ao menos isso me acomp...
Postagens recentes

O risco não é uma rebelião das máquinas, mas uma rendição humana

Dentro de muitos lares, a cena se repete com variações quase imperceptíveis. Uma criança sentada no sofá, o rosto iluminado pelo brilho da tela; um pai ou uma mãe passando apressado pelo corredor, tentando equilibrar trabalho, cansaço e culpa. Nada de extraordinário — apenas um instante comum, tão familiar que já não desperta atenção. Mas é justamente aí, nesse intervalo doméstico, que algo decisivo acontece. A disputa pelo futuro não se dá em laboratórios distantes nem em conferências sobre tecnologia; ela começa nesses momentos cotidianos em que os pais se ausentam por segundos e os algoritmos chegam primeiro. E, sem alarde, vão ocupando o lugar de quem educa, de quem acompanha, de quem molda. É uma disputa desigual. Os pais chegam tarde, distraídos, saturados por demandas. Os algoritmos estão sempre lá, registrando cada pausa, cada hesitação, cada deslizar de dedo na tela. Enquanto os adultos percebem apenas o que conseguem ver na pressa do cotidiano, os sistemas mapeiam temperament...

A Internet e o Primeiro Retrocesso da Humanidade

A humanidade sempre avançou apoiada numa convicção silenciosa: a de que o progresso vale o preço que cobra. Desde as primeiras ligas metálicas que moldaram armas e ferramentas até as máquinas fumegantes que reescreveram o mapa do trabalho, carregamos a crença de que os malefícios eram o custo natural de algo maior. Havia, no horizonte, a promessa de que o ganho líquido — mais longevidade, mais segurança, mais conhecimento — permanecia intocado. E, mesmo quando a ciência abriu as portas para forças capazes de destruir cidades inteiras, como a bomba atômica, mantivemos a fé de que o saldo final ainda era positivo, de que a marcha civilizacional continuava a apontar para cima. Mas talvez estejamos chegando ao primeiro desvio nessa trajetória confiável. Talvez, pela primeira vez, devamos perguntar se o progresso não apenas mudou de direção, mas se, de fato, começou a vacilar. Essa interrogação incômoda nos conduz diretamente à internet — não como invenção isolada, mas como força organiza...

A doce fraude do ganho fácil

Ultimamente, tenho a sensação de que o mundo virou uma grande startup. Acordo todos os dias esperando um investimento divino, um capital de risco celestial que transforme meu cotidiano em um caso de sucesso. Mas o máximo que consigo é fazer o café sem derramar. Enquanto isso, um rapaz de 19 anos cria um aplicativo que conecta pessoas que perderam meias e vende a ideia por bilhões. Não é inveja. É antropologia. Estou genuinamente fascinado por esse novo ecossistema em que tudo pode dar certo — menos o razoável. As grandes fortunas agora nascem do nada, florescem em semanas e se multiplicam como coelhos digitais. As empresas com séculos de história, fábricas, terrenos, navios, máquinas, pessoas — todas parecem figuras românticas de um passado artesanal. O futuro, ao que parece, pertence a quem não sua. E lá estou eu, assistindo a tudo, com a dignidade dos que ainda acreditam em currículos. Lembro do tempo em que o sucesso era um processo — e não um sorteio transmitido em tempo real. ...

A Pequena Vitória da Maturidade

A dor é impiedosa. Ela chega sem aviso, rasga nossas certezas e deixa feridas que parecem impossíveis de cicatrizar. Muitos atravessam a vida carregando sofrimentos que nunca se transformam, que apenas pesam em silêncio. E, mesmo quando a dor nos molda, não há garantia de alívio; a maturidade, se vier, chega tarde, como um consolo tímido e silencioso. Mas é na maturidade que talvez resida a pequena vitória que a dor nos concede. Ela não apaga a ferida, nem devolve o que se perdeu, mas nos oferece uma forma de olhar para a vida sem sermos completamente arrastados por ela. E, nesse espaço de sobrevivência, surge a possibilidade de escolha, de ternura, de perceber que, apesar das perdas, ainda há algo que podemos proteger — a nós mesmos e o que nos resta de vida.

O Território da Intimidade

Há um território que todos habitamos, mas que ninguém atravessa sem cuidado: o da intimidade. Um espaço sem mapa, onde se escondem pensamentos que não ousamos revelar, desejos que nos envergonham, memórias que guardamos apenas para nós mesmos. É um lugar silencioso, mas poderoso, pois é nele que nos definimos — não pelo que mostramos ao mundo, mas pelo que nos recusamos a mostrar. Agora, imagine que, de repente, esse território fosse invadido. Uma tecnologia capaz de penetrar nas mentes de todos, sem exceção, revelando tudo o que é mais íntimo. Por um tempo breve, talvez apenas alguns dias, nada poderia ser escondido. O que antes era segredo, a sombra pessoal que nos permitia caminhar entre os outros com alguma dignidade, tornaria-se visível. Cada pensamento, cada desejo, cada medo, exposto como se a alma fosse feita de vidro. O impacto inicial seria devastador. Palavras não ditas durante anos saltariam da mente de cada um como fogo. Olhares se cruzariam carregados de segredos que ...

Entre a Cicatriz e a Ferida: A Arquitetura do Arrependimento

Carrego comigo alguns arrependimentos, e há neles uma diferença essencial. Uns me parecem mais leves, porque a vida, generosa, me ofereceu ocasiões semelhantes onde pude escolher de outro modo. É como se tivesse reencontrado antigos cruzamentos do destino e, dessa vez, tomado a estrada certa, resgatando algo de mim que ficara perdido lá atrás. Mas existem outros arrependimentos que não concedem essa trégua: sei que jamais retornarei àquelas encruzilhadas, jamais terei a chance de me testar de novo. Esses permanecem mais pesados, como páginas que não se deixam reescrever. Será que o arrependimento só se desfaz quando a vida nos conduz novamente ao mesmo cenário, oferecendo a chance de corrigir o gesto, alinhar a palavra, estender a mão que antes hesitou? Por vezes me parece que sim, pois essa repetição carrega um sabor de redenção, como se o tempo, generoso e paciente, concedesse ao erro a oportunidade de se transformar em aprendizado vivo. Mas será que o arrependimento se resume a is...

O Tempo, Meu Carrasco, Meu Aliado

O tempo sempre se insinuou em minha vida como uma presença ambígua, um companheiro de passos invisíveis que ora estende a mão para suavizar, ora a recolhe para ferir. Aliado, quando dilui na distância a dor aguda dos dias pesados, quando envolve as feridas num manto de esquecimento e devolve, pouco a pouco, a leveza que parecia perdida para sempre. É ele quem empresta perspectiva às escolhas passadas, quem transforma tragédias em lembranças suportáveis, quem devolve o poder de olhar para trás sem se afogar no mesmo peso. Na presença do tempo há ternura: a promessa silenciosa de que nada permanece tão intenso que não possa, um dia, ser respirado com serenidade. Mas o mesmo tempo que acalenta é também um algoz paciente. Avança com dedos invisíveis sobre o corpo, riscando na pele mapas de sua passagem, retirando da carne a agilidade, da mente a inocência, do olhar a novidade. É ele quem sussurra, a cada aniversário, a contagem regressiva que fingimos não ouvir. Nenhum instante é preserv...

O Que Restou do Amanhã?

Houve um tempo em que o futuro tinha forma. Ainda que incerto, ainda que repleto de surpresas, ele se erguia diante de nós como um baralho cuidadosamente embaralhado: não sabíamos a ordem das cartas, mas conhecíamos cada naipe, cada figura, cada número. Cada passo dado hoje tinha um eco previsível amanhã, e até mesmo o medo ou a esperança carregavam um consolo — sabíamos que todas as possibilidades estavam ali, à espera de serem descobertas. Hoje, tudo mudou. O futuro perdeu substância. Não há cartas sobre a mesa, não há mesa, talvez nem baralho. Apenas um espaço indefinido, um vazio onde tudo pode nascer ou não nascer, e onde qualquer gesto que imaginamos parece se dissolver antes de tocar algo real. Caminhar em direção a ele é sentir os pés deslizarem sobre um chão que desaparece a cada passo, uma corda suspensa sobre o nada, fina, instável e impossível de agarrar. E há uma tristeza silenciosa nesse contraste. A nostalgia não vem apenas de desejar o que se perdeu, mas de perceber...

O Preço de Ser Eu

F ui fiel a mim. Esta frase, que durante tantos anos carreguei como medalha, hoje me escorre pelas mãos como um metal enferrujado. Porque ser fiel a si mesmo, percebo agora, pode ser também uma forma muito sofisticada de prisão. Quando a vida ainda era um campo aberto e promissor, agarrei-me com força àquilo que julguei ser minha essência. Defendi meus gostos, minhas certezas, meus limites. Preservar meu eu me parecia um ato de coragem num mundo feito de concessões. Mas agora, quando olho para trás com os olhos da maturidade — esses olhos que não pedem licença para enxergar o que antes era invisível —, começo a suspeitar que talvez eu tenha errado a dose. É uma ironia quase poética: só quando o tempo já não nos dá tempo é que começamos a desconfiar do eu que escolhemos proteger. A frustração, então, não é apenas por aquilo que não vivemos — é pelo modo como dissemos "não" a tantas possibilidades em nome de uma integridade mal compreendida. Talvez eu devesse ter sido menos l...