Habitamos um tempo de geometria impossível. Se olharmos para cima, vemos o brilho do aço e do silício: foguetes que buscam Marte, inteligências que mimetizam o pensamento humano e uma conexão que nos permite tocar o outro lado do globo em milésimos de segundo. Mas, se olharmos para o chão, para onde pisamos e para como nos organizamos, o cenário é de poeira e retrocesso. É como se estivéssemos pilotando uma Ferrari tecnológica orientados por um mapa de 1930, insistindo em dirigir em direção a um precipício que já conhecemos de cor. O que mais assusta no mundo atual não é a velocidade do avanço, mas a direção do recuo. Assistimos, com uma passividade hipnótica, ao ressurgimento de radicalismos que julgávamos enterrados. Vemos democracias sólidas flertarem com o autoritarismo e territórios históricos, como a Europa, parecerem hóspedes desorientados em sua própria casa, sem bússola e sem aliados. Estranhamente, quanto mais o mundo avança digitalmente, mais ele retrocede nos costum...
Esta manhã, enquanto o café subia devagar na cafeteira, dei por mim repetindo um gesto que não reconheci como meu. O toque seco da colher batendo na borda da xícara, impaciente, quase ríspido, não me pertencia. Veio de longe. De alguém que não faz mais parte da minha vida há anos. Por um instante, a cozinha perdeu a solidão habitual e se encheu de uma presença sem corpo. Não foi lembrança — foi ocupação. Um reflexo muscular, uma prova concreta de que certas ausências continuam morando dentro de nós, instaladas nos nervos, nos hábitos, nas pequenas coreografias do cotidiano. Passei a observar com uma lucidez desconfortável. Quantas das minhas ideias sobre o que é correto, aceitável ou digno não passam de ecos bem treinados? Quantas convicções que defendo com segurança nasceram fora de mim e apenas encontraram aqui um lugar confortável para se repetir? Gostamos de falar de influência como se fosse herança ou polinização: algo quase poético, que nos ajuda a crescer. Mas a intimidade, ...