Meu Bisneto, Sento-me para te escrever com uma hesitação que a juventude desconhece. Pediram-me um conselho único, uma espécie de bússola para a tua vida, mas a maturidade me ensinou a desconfiar de fórmulas prontas. Preocupa-me a pretensão de te guiar em um mundo cujas regras eu sequer imagino. Como posso eu, com o mapa de um território que já não existe, indicar o teu caminho? A verdade é que a sabedoria que acumulei não é um troféu brilhante, mas um conjunto de remendos. Por isso, meu conselho é mais um compartilhar de perspectiva do que uma imposição: Não tenhas medo de errar, pois o erro é um dos poucos professores que falam a verdade; mas entende que nem todo erro educa e que o acerto, embora mais silencioso, é o que mantém o teto sobre as nossas cabeças. Muitos te dirão que o sucesso é o único norte. E não se engane: o acerto é fundamental. Ele pavimenta a estrada, traz o conforto da eficiência e a segurança de que o que aprendemos funciona. O acerto é o tijolo da construç...
Outro dia, observando o movimento de uma maré baixa, dei por mim pensando no que resta de uma rocha após anos de confronto com o mar. Ela não cede por vontade, mas o atrito a molda; torna-se menor, mais lisa, talvez mais palatável ao toque de quem caminha pela areia, mas já não guarda as arestas que a definiam no início. Perde a aspereza — e, com ela, algo que talvez fosse mais do que forma: um traço da sua identidade original. Muitas vezes, a vida nos coloca diante desse mesmo oceano. De um lado, há a urgência de não ceder. É a postura quase mineral de quem decide que o erro, se vier, será um erro autêntico — um tropeço em pernas próprias. Há uma dignidade solitária em manter as arestas, em aceitar o isolamento como o pedágio necessário para não se tornar um estrangeiro sob a própria pele. O erro, nesse caso, deixa de ser acidente e se transforma em cicatriz de fundação, carregada com um orgulho silencioso por sabermos exatamente como foi inscrita em nós. Mas há um can...