Esta manhã, enquanto o café subia devagar na cafeteira, dei por mim repetindo um gesto que não reconheci como meu. O toque seco da colher batendo na borda da xícara, impaciente, quase ríspido, não me pertencia. Veio de longe. De alguém que não faz mais parte da minha vida há anos. Por um instante, a cozinha perdeu a solidão habitual e se encheu de uma presença sem corpo. Não foi lembrança — foi ocupação. Um reflexo muscular, uma prova concreta de que certas ausências continuam morando dentro de nós, instaladas nos nervos, nos hábitos, nas pequenas coreografias do cotidiano. Passei a observar com uma lucidez desconfortável. Quantas das minhas ideias sobre o que é correto, aceitável ou digno não passam de ecos bem treinados? Quantas convicções que defendo com segurança nasceram fora de mim e apenas encontraram aqui um lugar confortável para se repetir? Gostamos de falar de influência como se fosse herança ou polinização: algo quase poético, que nos ajuda a crescer. Mas a intimidade, ...
Ao longo da vida, vou perdendo colágeno, neurônios, cabelo. A pele cede, a memória falha, o espelho passa a ser menos generoso. Tudo em mim parece ter prazo de validade, como se o tempo cobrasse pedágio em cada etapa do caminho. Há perdas discretas, quase imperceptíveis, e outras que se anunciam sem pudor, obrigando-me a aceitar que já não sou o mesmo. Mas há algo que resiste com uma lealdade desconcertante. A loucura — essa mistura de teimosia, contradições, obsessões íntimas e manias — não se deixa levar pelo desgaste. Pelo contrário, amadurece comigo. Quando o corpo se desfaz aos poucos e a razão aprende a negociar com a realidade, ela permanece ali, fiel sentinela do que fui e do que insisto em ser. Talvez porque a loucura não seja exatamente um defeito, mas um resto indomável da minha humanidade. É ela que me impede de me tornar uma versão totalmente polida, resignada e previsível. No fim, quando quase tudo se perde, é reconfortante pensar que ao menos isso me acomp...