Você não está equilibrado. Você só não percebeu ainda qual parte de si mesmo ficou para trás. A ideia de equilíbrio vende uma imagem confortável: uma balança bem ajustada entre trabalho e descanso, entre prazer e responsabilidade, entre o agora e o depois. Mas olhe para qualquer vida de perto e essa geometria desaparece. O que existe são inclinações fortes — alguém que vive com intensidade total em uma área da vida e com cálculo frio em outra. Alguém que planeja a aposentadoria com precisão de engenheiro e não planeja o próprio fim de semana. E o mais estranho: essas vidas não parecem quebradas. Parecem ter uma lógica própria — só que essa lógica não tem nada a ver com simetria. Isso sugere uma inversão importante: talvez o equilíbrio não seja uma característica das partes, mas do conjunto. A vida não precisa ser simétrica em cada uma de suas dimensões para adquirir coerência. Em muitos casos, aquilo que parece excesso num campo sustenta aquilo que parece insuficiência em outro. O ...
Há dias em que só percebo o que estou vivendo depois de já estar dentro disso há algum tempo. Não há aviso, nem passagem clara entre um estado e outro. Apenas um instante qualquer em que noto: já não sou exatamente o mesmo de antes, embora não consiga dizer quando deixei de ser. O mais estranho não é mudar. É não ter visto a mudança acontecer. Como se a vida corresse um pouco à frente do olhar que tenta acompanhá-la. No cotidiano, esse atraso aparece de forma discreta. Uma resposta que sai mais curta do que deveria. Um silêncio que se instala sem intenção. Um cansaço que não foi percebido enquanto crescia, apenas reconhecido quando já se tornou parte do corpo. Nada disso chega como evento. Chega como continuidade. E, quando tento entender, a explicação sempre vem depois. Tarde o suficiente para já não tocar exatamente o que aconteceu, mas apenas uma versão dele, já um pouco afastada, já ligeiramente reorganizada. É assim que começamos a construir sentido: sobre o que já não...