Outro dia, observando o movimento de uma maré baixa, dei por mim pensando no que resta de uma rocha após anos de confronto com o mar. Ela não cede por vontade, mas o atrito a molda; torna-se menor, mais lisa, talvez mais palatável ao toque de quem caminha pela areia, mas já não guarda as arestas que a definiam no início. Perde a aspereza — e, com ela, algo que talvez fosse mais do que forma: um traço da sua identidade original. Muitas vezes, a vida nos coloca diante desse mesmo oceano. De um lado, há a urgência de não ceder. É a postura quase mineral de quem decide que o erro, se vier, será um erro autêntico — um tropeço em pernas próprias. Há uma dignidade solitária em manter as arestas, em aceitar o isolamento como o pedágio necessário para não se tornar um estrangeiro sob a própria pele. O erro, nesse caso, deixa de ser acidente e se transforma em cicatriz de fundação, carregada com um orgulho silencioso por sabermos exatamente como foi inscrita em nós. Mas há um can...
Habitamos um tempo de geometria impossível. Se olharmos para cima, vemos o brilho do aço e do silício: foguetes que buscam Marte, inteligências que mimetizam o pensamento humano e uma conexão que nos permite tocar o outro lado do globo em milésimos de segundo. Mas, se olharmos para o chão, para onde pisamos e para como nos organizamos, o cenário é de poeira e retrocesso. É como se estivéssemos pilotando uma Ferrari tecnológica orientados por um mapa de 1930, insistindo em dirigir em direção a um precipício que já conhecemos de cor. O que mais assusta no mundo atual não é a velocidade do avanço, mas a direção do recuo. Assistimos, com uma passividade hipnótica, ao ressurgimento de radicalismos que julgávamos enterrados. Vemos democracias sólidas flertarem com o autoritarismo e territórios históricos, como a Europa, parecerem hóspedes desorientados em sua própria casa, sem bússola e sem aliados. Estranhamente, quanto mais o mundo avança digitalmente, mais ele retrocede nos costum...