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Por dentro das Bolhas de Filtro das Redes Sociais

Nos dias atuais, as bolhas de filtro formadas pelos algoritmos das redes sociais tornaram-se um tema de discussão cada vez mais relevante. Estas bolhas representam um fenômeno em que os usuários das redes sociais são expostos principalmente a informações, opiniões e perspectivas que confirmam suas próprias visões de mundo, resultando em uma limitada diversidade de pontos de vista e uma reduzida exposição a diferentes ideias e opiniões. Nesse ambiente, os usuários são mais suscetíveis a acreditar e compartilhar conteúdos que se alinham com suas visões, mesmo que sejam imprecisos ou enganosos, o que conduz à disseminação rápida de informações falsas e prejudiciais nas redes sociais.

Assim, as bolhas de filtro contribuem para a fragmentação da sociedade, onde diferentes grupos sociais têm visões radicalmente diferentes da realidade e têm dificuldade em se comunicar e cooperar entre si. Isso pode minar a coesão social, dificultar a resolução de problemas e conflitos e mesmo colocar em risco sistemas políticos estabelecidos.

É realmente impressionante o sucesso contínuo dos algoritmos das redes sociais, especialmente quando consideramos sua contribuição para males tão significativos na sociedade contemporânea. No entanto, é essencial não atribuir toda a responsabilidade desses males exclusivamente aos algoritmos. Para entender plenamente o impacto das redes sociais e suas implicações negativas, é crucial examinar os fenômenos subjacentes que contribuem para a formação das bolhas de filtro.

As bolhas de filtro não são apenas o resultado direto dos algoritmos das redes sociais. Elas são um fenômeno complexo que envolve uma interação entre fatores tecnológicos e sociais. Podemos identificar quatro fatores principais que contribuem para esse processo, sendo um deles de natureza tecnológica e os outros três de natureza social.

Algoritmo de engajamento: É um componente fundamental das plataformas de mídia social que influencia como o conteúdo é apresentado aos usuários. Esses algoritmos são projetados para analisar o comportamento dos usuários e identificar quais tipos de conteúdo são mais propensos a gerar interações, como curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações. Com base nessas análises, o algoritmo personaliza o feed de notícias de cada usuário, priorizando o conteúdo que é considerado mais relevante ou interessante para eles.

Existem vários fatores que os algoritmos de engajamento consideram ao determinar o conteúdo a ser exibido para um usuário específico. Isso inclui o histórico de interações do usuário, as preferências declaradas (como interesses, hobbies, páginas seguidas) e o tipo de conteúdo que eles tendem a consumir com mais frequência.

O objetivo principal do algoritmo de engajamento é maximizar o tempo que os usuários passam na plataforma, aumentando o engajamento e a interação com o conteúdo apresentado. Isso é crucial para as plataformas de mídia social, pois quanto mais tempo os usuários passam em suas plataformas, mais dados podem ser coletados e mais oportunidades de publicidade podem ser oferecidas aos anunciantes.

Viés de Confirmação: É um fenômeno psicológico que desempenha um papel significativo na forma como os algoritmos das redes sociais influenciam o comportamento dos usuários e moldam sua experiência online. Esse viés é uma parte intrínseca da cognição humana e se refere à tendência das pessoas de buscar e valorizar informações que confirmam suas próprias crenças e opiniões preexistentes, amplificando o poder dos algoritmos das redes sociais de várias maneiras.

Em primeiro lugar, o viés de confirmação torna os usuários mais propensos a interagir com o conteúdo que lhes é apresentado em seus feeds de notícias ou linha do tempo. Os algoritmos das redes sociais são projetados para analisar o comportamento dos usuários e identificar quais tipos de conteúdo são mais propensos a gerar engajamento. Quando os usuários são expostos principalmente a conteúdos que confirmam suas próprias crenças, eles são mais propensos a se envolver com esse conteúdo, curtindo, comentando ou compartilhando, o que, por sua vez, alimenta ainda mais o ciclo de confirmação.

Tendência de interagir com iguais: Essa tendência é profundamente enraizada na natureza social da espécie humana. Desde tempos ancestrais, os seres humanos têm buscado se conectar com outros que compartilham características semelhantes, sejam elas culturais, étnicas, linguísticas, religiosas, políticas, ou mesmo interesses comuns. Essa tendência pode ser observada em uma variedade de contextos sociais, desde a formação de tribos e comunidades até a participação em grupos de interesse e associações contemporâneas.

Uma das maneiras pelas quais essa tendência se manifesta nas redes sociais é através da formação de comunidades e grupos online. As pessoas tendem a se agrupar com outras que compartilham interesses, valores, hobbies, identidades ou experiências semelhantes. Nas redes sociais, isso se traduz na criação e participação em grupos específicos que abordam tópicos de interesse mútuo, desde hobbies como fotografia ou jardinagem até questões mais profundas como política ou religião.

Além disso, a tendência de interagir com iguais influencia quem os usuários escolhem seguir e com quem interagem em suas redes sociais. As pessoas são mais propensas a se conectar com aqueles que compartilham visões de mundo semelhantes.

Sentimento de pertencimento: Dentro de uma bolha de filtro, os usuários muitas vezes se encontram cercados por indivíduos com interesses, valores e opiniões semelhantes. Isso pode criar um senso de pertencimento e comunidade, onde os membros se sentem compreendidos e apoiados por outros que compartilham suas visões de mundo. Essa sensação de pertencimento pode ser especialmente valiosa para pessoas que se sentem marginalizadas ou isoladas em suas vidas offline.

A formação das bolhas de filtro nas redes sociais é um fenômeno complexo impulsionado por uma interação sinérgica entre o algoritmo de engajamento, o viés de confirmação e a tendência de interagir com iguais. Esses fatores atuam de forma colaborativa para criar um ciclo auto-reforçador, onde os usuários são expostos principalmente a informações que confirmam suas próprias crenças e perspectivas. Enquanto o algoritmo de engajamento impulsiona a apresentação de conteúdo alinhado com as preferências dos usuários, o viés de confirmação aumenta sua propensão a interagir com esse conteúdo. Por sua vez, a tendência de interagir com iguais reforça a formação de comunidades online homogêneas. Embora essas bolhas possam proporcionar um sentimento de pertencimento e conforto social para os usuários, elas também contribuem para a polarização e a fragmentação da sociedade, dificultando o diálogo construtivo e a cooperação entre grupos com diferentes perspectivas. É fundamental entender essa interação complexa entre os fatores envolvidos na formação das bolhas de filtro para mitigar seus impactos negativos e promover uma comunicação mais diversificada e inclusiva nas redes sociais.

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