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A Internet e o Primeiro Retrocesso da Humanidade

A humanidade sempre avançou apoiada numa convicção silenciosa: a de que o progresso vale o preço que cobra. Desde as primeiras ligas metálicas que moldaram armas e ferramentas até as máquinas fumegantes que reescreveram o mapa do trabalho, carregamos a crença de que os malefícios eram o custo natural de algo maior. Havia, no horizonte, a promessa de que o ganho líquido — mais longevidade, mais segurança, mais conhecimento — permanecia intocado. E, mesmo quando a ciência abriu as portas para forças capazes de destruir cidades inteiras, como a bomba atômica, mantivemos a fé de que o saldo final ainda era positivo, de que a marcha civilizacional continuava a apontar para cima.

Mas talvez estejamos chegando ao primeiro desvio nessa trajetória confiável. Talvez, pela primeira vez, devamos perguntar se o progresso não apenas mudou de direção, mas se, de fato, começou a vacilar. Essa interrogação incômoda nos conduz diretamente à internet — não como invenção isolada, mas como força organizadora da vida moderna. Ela surge como candidata a romper o princípio histórico do saldo positivo, oferecendo um avanço cujos benefícios já não são tão evidentes e cujos custos talvez não sejam mais suportáveis.

Para compreender o alcance dessa ruptura, é preciso recordar a lógica histórica que sempre sustentou o desenvolvimento. O avanço tecnológico foi acompanhado por custos bem conhecidos: guerras alimentadas por armamentos cada vez mais letais, cidades envenenadas pela fumaça do carvão, oceanos transformados em depósitos invisíveis de rejeitos. E, no entanto, nada disso abalou o pressuposto de que os benefícios superavam os danos. O mundo moderno aceitou esses efeitos colaterais como parte de um acordo inevitável — um pacto tácito que colocava a ciência acima de seus próprios desastres.

A internet, porém, escapa dessa narrativa confortável. Ela não é uma tecnologia que age sobre o mundo externo, como máquinas, armas ou sistemas de transporte. Ela age por dentro: reorganiza o modo de perceber o tempo, modela a experiência emocional, reconfigura o espaço íntimo da consciência. Não se limita a transformar sociedades; transforma o sujeito. E esse deslocamento altera a natureza do progresso, porque os danos já não são físicos ou ambientais, mas psicológicos e existenciais. A destruição deixa de ser visível e passa a ser interior, silenciosa, acumulada no território da atenção e do afeto.

Quando surgiu, a internet parecia apenas continuidade do velho ideal de avanço. Democratizaria o conhecimento, facilitaria a comunicação, reduziria distâncias, ampliaria oportunidades. Parecia uma nova biblioteca de Alexandria, mas viva, móvel, universal. Contudo, conforme se expandiu, ela deixou de ser biblioteca e se tornou labirinto. Deixou de ser ferramenta e virou ambiente. De instrumento que servia ao ser humano, converteu-se em meio onde o humano passa a habitar — e, como todo meio, impõe suas próprias leis. Um mundo que se instala não só nas telas, mas nos intervalos de pensamento, nos espaços antes reservados ao silêncio, nas manhãs em que não acordamos mais sozinhos, mas imediatamente acompanhados por um fluxo de notificações.

É aqui que a dúvida ganha corpo. O progresso da internet talvez seja o primeiro que não se paga. Não porque não ofereça vantagens — elas são inegáveis —, mas porque os danos não são periféricos, e sim estruturais. Eles se infiltram onde a civilização menos soube olhar: no ritmo da mente, na elasticidade da atenção, na profundidade das relações, na capacidade de sustentar o próprio eu sem dispersão constante. A bomba atômica nos aterrorizou, mas não entrou no quarto à noite. A internet, ao contrário, entra sem bater. Não destrói cidades: destrói a capacidade de introspecção. Não incendeia florestas: incendeia o tempo livre. Não fragmenta territórios: fragmenta a continuidade da consciência. E o faz de maneira tão suave, tão aderente, que quase acreditamos que foi escolha nossa.

Para testar essa hipótese, imaginemos — não por nostalgia, mas por método — o mundo tal como é e o mundo tal como seria sem internet. O exercício não pretende idealizar o passado, apenas iluminar o presente. Com a internet, ganhamos uma velocidade inédita de comunicação, uma economia digital pulsante, acesso imediato a um oceano de informações que antes levaríamos uma vida inteira para tocar. Sem ela, perderíamos parte dessa eficiência. Mas, em troca, talvez preservássemos algo que hoje se tornou escasso: um tempo contínuo, uma privacidade profunda, uma identidade que se forma sem espelhos incessantes, uma atenção não fragmentada, relações que amadurecem no ritmo da presença e não da performance, um mundo onde a interioridade não é constantemente solicitada, medida, vigiada ou exibida.

A pergunta que emerge desse contraste não é se a internet deveria existir ou não — esse tipo de oposição é simplista —, mas se o modo como ela se infiltrou na vida representa um avanço ou um ônus. E, sobretudo, se a ideia moderna de progresso ainda é capaz de captar aquilo que realmente importa. Porque talvez o que esteja em jogo seja menos a internet e mais a crença, quase religiosa, de que toda tecnologia é benéfica por definição. Essa fé no progresso automático impediu que víssemos seus efeitos subjetivos. Ficamos cegos para o fato de que, ao medir avanço apenas por produtividade, conectividade e velocidade, deixamos de medir o que nos constitui: o silêncio, a densidade emocional, o poder de concentração, a liberdade de atenção, a profundidade dos vínculos, a autonomia da mente.

Talvez ainda seja cedo para concluir se a internet é, em última instância, um saldo positivo ou negativo. Mas já é tarde demais para fingir que a pergunta não importa. O progresso só continuará merecendo esse nome se formos capazes de proteger aquilo que ele não pode fabricar: o espaço interno onde cada pessoa se torna si mesma. Se falharmos nisso, a internet — essa maravilha técnica, esse triunfo da inteligência humana — poderá ser lembrada, ironicamente, como o ponto em que o progresso começou a duvidar de si.

Porque o futuro da humanidade talvez dependa menos das máquinas que inventamos e mais daquilo que ainda conseguimos preservar dentro de nós.



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