Ao longo da vida, vou perdendo colágeno, neurônios, cabelo. A pele cede, a memória falha, o espelho passa a ser menos generoso. Tudo em mim parece ter prazo de validade, como se o tempo cobrasse pedágio em cada etapa do caminho. Há perdas discretas, quase imperceptíveis, e outras que se anunciam sem pudor, obrigando-me a aceitar que já não sou o mesmo.
Mas há algo que resiste com uma lealdade desconcertante. A loucura — essa mistura de teimosia, contradições, obsessões íntimas e manias — não se deixa levar pelo desgaste. Pelo contrário, amadurece comigo. Quando o corpo se desfaz aos poucos e a razão aprende a negociar com a realidade, ela permanece ali, fiel sentinela do que fui e do que insisto em ser.
Talvez porque a loucura não seja exatamente um defeito, mas
um resto indomável da minha humanidade. É ela que me impede de me tornar uma
versão totalmente polida, resignada e previsível. No fim, quando quase tudo se
perde, é reconfortante pensar que ao menos isso me acompanha até o último
suspiro: a certeza de que nunca fui normal — ainda bem.

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