Habitamos um tempo de geometria impossível. Se olharmos para cima, vemos o brilho do aço e do silício: foguetes que buscam Marte, inteligências que mimetizam o pensamento humano e uma conexão que nos permite tocar o outro lado do globo em milésimos de segundo. Mas, se olharmos para o chão, para onde pisamos e para como nos organizamos, o cenário é de poeira e retrocesso. É como se estivéssemos pilotando uma Ferrari tecnológica orientados por um mapa de 1930, insistindo em dirigir em direção a um precipício que já conhecemos de cor.
Não temos mais o benefício da ignorância. Os homens da virada do século XIX para o XX podiam alegar que não sabiam onde o nacionalismo exacerbado e o culto à força bruta iriam desaguar; eles não tinham as fotografias de Auschwitz ou as ruínas de Hiroshima no espelho retrovisor. Nós as temos. E, ainda assim, parecemos impelidos a repetir o erro. Por que o abismo, mesmo iluminado, continua a ser o nosso destino preferencial?
A verdade que me assombra é esta: a tecnologia não está a levar-nos para a frente. Ela está a realizar um trabalho arqueológico de alta precisão.
O que chamamos de inovação agiu, na verdade, como uma escavadeira que não buscou o nosso intelecto, mas o nosso porão. O segredo dessa máquina foi descobrir que o "homem moderno" é apenas um primata da savana usando um disfarce de civilidade. Mas a pergunta que resta é: por que razão a tecnologia libertou este prisioneiro que julgávamos domado?
A causa, parece-me, reside na morte da fricção.
Durante séculos, a civilização foi uma arquitetura de contenção. Entre o nosso impulso de agredir e o ato da agressão, existiam filtros: o tempo de espera de uma carta, a mediação das instituições, o peso do olhar presencial e o julgamento da comunidade. A civilização exigia paciência, e a paciência é a inimiga natural do instinto. O mundo digital, porém, eliminou esses intermediários. Ele criou uma linha direta entre a nossa central de fúria e medo e a praça pública. Ao deletar o tempo de reflexão, a tecnologia deletou a nossa capacidade de sermos racionais. O primata não precisou fugir; as portas da cela simplesmente forem abertas.
Mais do que isso, a tecnologia deu-nos a perigosa ilusão da invisibilidade. Na tribo ancestral, a empatia era um freio biológico ativado pelo rosto do outro. Atrás de uma tela, porém, o semelhante deixa de ser humano e passa a ser apenas um ícone, um obstáculo ou um alvo. Sem o corpo presente, a nossa moralidade desliga-se. Libertamos o homem das cavernas porque lhe oferecemos o dom de atacar sem ser visto e de ferir sem ouvir o próprio eco.
Mas há uma causa ainda mais cínica por trás deste despertar. Fomos vítimas de uma engenharia reversa que transformou as nossas falhas evolutivas em modelo de negócio. As empresas de tecnologia descobriram que o cérebro humano prioriza o perigo e o conflito. Para lucrar, os algoritmos precisam de "acordar" o nosso viés de negatividade, aquele instinto que nos fazia olhar para a cobra e ignorar as flores. Fomos deliberadamente cutucados para reagir, rosnar e agrupar-nos em bandos. O retrocesso que vemos na política e nos costumes não é um erro de percurso; é o resultado de uma máquina que descobriu que o homem civilizado é um péssimo consumidor, mas o primata assustado é um cliente fiel.
Caminhamos, assim, por um mundo de alta precisão tecnológica e baixa densidade humana. O prisioneiro está solto, e transporta no bolso uma ferramenta capaz de incendiar o mundo com um toque. Resta-me a melancolia de saber que não temos mais o benefício da ignorância. Os homens de 1914 caminhavam para o abismo no escuro; nós caminhamos sob a luz ofuscante do 5G, transmitindo a nossa própria queda em alta definição.
Talvez o progresso tenha sido
apenas uma breve distração, um intervalo de paz que nos fez esquecer quem
somos. No fim, de que adianta possuirmos a tecnologia dos deuses se ainda somos
regidos pelo medo dos animais? O futuro, ao que parece, é apenas o abraço
apertado de tudo o que deixámos para trás.

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