Pular para o conteúdo principal

O Hóspede

Esta manhã, enquanto o café subia devagar na cafeteira, dei por mim repetindo um gesto que não reconheci como meu. O toque seco da colher batendo na borda da xícara, impaciente, quase ríspido, não me pertencia. Veio de longe. De alguém que não faz mais parte da minha vida há anos. Por um instante, a cozinha perdeu a solidão habitual e se encheu de uma presença sem corpo. Não foi lembrança — foi ocupação. Um reflexo muscular, uma prova concreta de que certas ausências continuam morando dentro de nós, instaladas nos nervos, nos hábitos, nas pequenas coreografias do cotidiano.

Passei a observar com uma lucidez desconfortável. Quantas das minhas ideias sobre o que é correto, aceitável ou digno não passam de ecos bem treinados? Quantas convicções que defendo com segurança nasceram fora de mim e apenas encontraram aqui um lugar confortável para se repetir?

Gostamos de falar de influência como se fosse herança ou polinização: algo quase poético, que nos ajuda a crescer. Mas a intimidade, quando examinada sem indulgência, revela outro mecanismo. Há relações que não fertilizam; infestam. Certas pessoas não se aproximam para caminhar ao nosso lado, aproximam-se para se instalar. Entram com cuidado, trazendo suas aversões, seus medos mal resolvidos, suas pequenas violências, e deixam tudo isso em nós como matéria incubada. Só muito depois percebemos que o que cresce já não nos pertence.

O que torna essas pessoas tão eficazes? Talvez uma sensibilidade cirúrgica, uma empatia que não acolhe, mas mapeia. Elas não querem aliviar a dor — querem localizá-la. Encontram as fissuras, os pontos frágeis, e é por ali que entram. À mesa, num desabafo noturno, num gesto que parece afeto, trocam o segredo do cofre. Quando damos conta, estamos defendendo ideias que nunca escolhemos, carregando culpas fabricadas em outro peito, desconfiando de quem jamais nos feriu. O hóspede passa a falar por nós. E nós obedecemos.

Há algo profundamente inquietante nessa invasão silenciosa. Mas talvez o mais perturbador não seja a habilidade de quem invade, e sim a nossa disposição para abrir a porta. Existe um alívio obscuro em abdicar da autoria de si mesmo. Ser ocupado é, muitas vezes, descansar do trabalho de escolher. É um suicídio lento da identidade, parcelado em pequenos gestos diários, em que o pensamento próprio vai sendo substituído por automatismos herdados.

Com o passar dos anos, o espelho se transforma em interrogatório. O que sobra quando retiramos todas essas presenças internas? Se eu expulsasse cada voz que não nasceu comigo — as dos pais, dos amores que moldaram à força, dos amigos que exigiram lealdade absoluta, dos mestres que confundiram orientação com domínio — restaria algo inteiro? Ou sou apenas a soma dessas ocupações bem-sucedidas?

Talvez o erro esteja em imaginar a identidade como uma casa fortificada. Talvez sejamos mais parecidos com um hotel gasto à beira da estrada, onde hóspedes entram e saem sem cerimônia, deixando malas esquecidas nos quartos. E o “eu” não passa do recepcionista exausto, tentando lembrar a quem pertencem as chaves, a quem ainda deve pedir que vá embora.

Resta a pergunta final, a mais difícil de encarar: existe ainda algum quarto que nunca foi ocupado? Um espaço mínimo, intacto, onde nenhuma vontade estrangeira tenha conseguido entrar? Ou somos, no fim, apenas estruturas ocas, movidas por desejos que nunca foram nossos, repetindo gestos que não reconhecemos — como o bater impaciente de uma colher numa xícara que já não sabemos se nos pertence.






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

How much of our freedom are we willing to trade for security?

In times of growing fear and uncertainty, this question becomes more than just a theoretical dilemma. We live in an era where chaos and instability make us question the very foundations of democracy. With each new crisis, it seems increasingly clear that society is willing to give up fundamental freedoms in the hope of strong leadership that will bring order and predictability. But to what extent can democracy, as we know it, withstand these concessions without dissolving into something unrecognizable? The current era is marked by changes that challenge our notion of security and stability. Recurring economic crises, extreme climate changes, and rapid social and cultural transformations are adding up, creating an environment of profound uncertainty. Technology, in turn, also contributes to this scenario. Instead of merely connecting us, it reveals vulnerabilities: personal data exposure, digital surveillance, the rise of artificial intelligence, and the impact of social media on human ...

A Educação Ideal: Um Mito?

Ao olharmos para a evolução da educação dos filhos ao longo das gerações, é fácil nos encantarmos com a ideia de um progresso contínuo. Parece que, a cada nova leva de pais, os erros do passado são corrigidos e novas práticas, mais sensíveis e empáticas, emergem como um reflexo do nosso tempo. A impressão que fica é de que estamos, passo a passo, nos aproximando de um modelo ideal de criação. Mas será que essa sensação traduz a realidade, ou estamos apenas reescrevendo as mesmas histórias com roupagens diferentes? A crença de que existe uma forma "correta" de educar os filhos é tão reconfortante quanto ilusória. Cada geração, convencida de sua superioridade, ajusta suas práticas às demandas do presente, projetando sobre os filhos aquilo que acredita ser essencial para a vida. Hoje, valorizamos a empatia, o apoio emocional e a autonomia, confiando que essas qualidades formarão adultos mais felizes e resilientes. Mas essa certeza é tão passageira quanto as práticas que vieram...

Mente Simplificada, Mundo Complexo: Navegando pelos Desafios da Informação

Ao longo da história da humanidade, o cérebro humano evoluiu em resposta aos desafios e demandas do ambiente em que nossos ancestrais viveram. Desde os tempos pré-históricos, onde a busca por alimentos e a proteção contra ameaças físicas eram as principais preocupações, até os dias atuais, onde somos confrontados com uma vasta quantidade de informações e complexidades sociais, a evolução do cérebro tem sido fundamental para nossa sobrevivência e progresso. Neste contexto, a capacidade do cérebro de simplificar a realidade, reconhecer padrões e tomar decisões eficazes tornou-se uma habilidade crucial. No entanto, essa mesma capacidade pode levar a distorções e simplificações excessivas que têm repercussões significativas em nossa sociedade. Neste texto, exploraremos a evolução do cérebro humano, os desafios da simplificação cognitiva e os potenciais impactos dos avanços tecnológicos, como a interface cérebro-máquina, na forma como lidamos com a complexidade do mundo moderno. Ao fazê-lo,...