Meu Bisneto,
Sento-me para te escrever com uma hesitação que a juventude desconhece. Pediram-me um conselho único, uma espécie de bússola para a tua vida, mas a maturidade me ensinou a desconfiar de fórmulas prontas. Preocupa-me a pretensão de te guiar em um mundo cujas regras eu sequer imagino. Como posso eu, com o mapa de um território que já não existe, indicar o teu caminho? A verdade é que a sabedoria que acumulei não é um troféu brilhante, mas um conjunto de remendos. Por isso, meu conselho é mais um compartilhar de perspectiva do que uma imposição:
Não tenhas medo de errar, pois o
erro é um dos poucos professores que falam a verdade; mas entende que nem todo
erro educa e que o acerto, embora mais silencioso, é o que mantém o teto sobre
as nossas cabeças.
Muitos te dirão que o sucesso é o
único norte. E não se engane: o acerto é fundamental. Ele pavimenta a estrada,
traz o conforto da eficiência e a segurança de que o que aprendemos funciona. O
acerto é o tijolo da construção. No entanto, ele tem uma característica
curiosa: raramente nos faz perguntas. Quando acertamos, tendemos a seguir
adiante confirmando o que já sabíamos. É uma zona de repouso, necessária para a
sobrevivência, mas muitas vezes estática para a alma.
O erro, por outro lado —
refiro-me àqueles equívocos de julgamento, às escolhas feitas com a melhor das
intenções, mas que resultaram em queda —, esse erro nos obriga à interrupção.
Se o acerto é o tijolo, o erro é o cinzel que esculpe o rosto que vemos no
espelho. Olhando pelo retrovisor da minha própria vida, percebo que foram os
meus tropeços que me forçaram a desenvolver alguma profundidade. Eles me
tiraram a arrogância e me deram, em troca, uma compreensão mais mansa sobre a
fragilidade humana. O erro, quando processado com honestidade, ajuda a corrigir
o próprio defeito que o causou.
Mas cuidado com a romantização da
falha. Há erros que são apenas negligência e riscos que são apenas imprudência.
O aprendizado depende da tua capacidade de sobreviver a ele — física e
moralmente. Por isso, evita os erros que comprometem a tua saúde ou a tua
dignidade básica; desses, o custo raramente compensa a lição.
Escolho te dizer isso porque a
vida real é feita de "dependes". A maturidade não te trará certezas
absolutas, mas te dará a calma necessária para olhar para as tuas cicatrizes e
entender que elas são o registro de que você não passou pela vida como um
espectador intocado. A identidade não é um bloco polido; é uma colcha de
retalhos onde o fio do acerto une os pedaços que o erro nos obrigou a cortar.
Talvez este texto não te faça
sentido agora. A juventude tem pressa de chegar, e o erro parece apenas um
atraso. Tudo bem. Volta a estas palavras para quando o vento mudar.
Guarda o que te digo como quem
guarda um caco de vidro: com o cuidado de quem sabe que ele brilha, mas também
fere. Não sei como será o teu mundo. Mas sei que existes porque muita coisa
quebrou antes de ti — e continuou. Isso, por si só, já é uma instrução.

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