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Mostrando postagens de abril, 2026

O Limite do Possível

A gente costuma olhar para trás e pensar que poderia ter feito diferente. Que dava para ter dito outra coisa. Que dava para ter saído antes. Que dava para ter insistido mais. Essa sensação é quase inevitável — como se, naquele momento, houvesse um leque aberto de possibilidades, e você simplesmente escolheu uma delas. Mas essa sensação parte de uma suposição implícita: a de que todas aquelas opções estavam realmente disponíveis para você naquele momento. E nem sempre estavam. A gente vive apoiado numa espécie de continuidade interna — uma forma de se reconhecer no que faz, de manter alguma coerência ao longo do tempo. Não é algo que você decide conscientemente. Mas está ali, moldando o que parece possível… e o que simplesmente não entra em consideração. Em muitos momentos, a escolha não acontece entre todas as opções possíveis. Ela acontece entre as opções que fazem sentido para quem você acredita ser. Não é que as outras não existam. É que elas não parecem viáv...

Entre uma história e outra

A vida acontece sem pedir licença para fazer sentido. As coisas vêm primeiro — e só depois a gente tenta entender o que, afinal, aquilo foi. Quase como se viver fosse sempre um pouco anterior a se compreender. Esse esforço de organizar o vivido é o que podemos chamar de narrativa de vida — não uma história que contamos, mas a forma como mantemos alguma continuidade sobre quem somos enquanto tudo está acontecendo. A narrativa de vida não existe para ser perfeitamente verdadeira. Ela existe para ser suficiente. Suficiente para que suas escolhas não pareçam aleatórias. Suficiente para que o passado não pareça desconectado. Suficiente para que você ainda se reconheça no que faz. Mas há momentos em que essa narrativa falha. Às vezes de forma lenta, quase imperceptível. Mas às vezes de forma abrupta — como quando algo acontece e, de repente, a explicação que você sempre usou simplesmente não serve mais. Não é que ela esteja errada. É que ela deixa de dar conta. Diante dis...

Quando uma promessa começa a cobrar

Há um momento em que uma frase muda tudo. Ela pousa — e o que pousou não se dissolve com o tempo, nem se apaga com o esquecimento alheio. Ela migra para dentro do presente e passa a pulsar no silêncio da rotina com uma insistência que nenhum grito conseguiria igualar. Porque gritos se dissipam; o que foi dito com calma, olho no olho, em voz firme — esse permanece. E começa, devagar, a cobrar. O problema é que quem falou já não existe da mesma forma. Somos seres de desgaste e renovação: perdemos células, mudamos certezas, renegociamos com a realidade a cada manhã. A pessoa que atravessou o silêncio naquele instante carregava medos diferentes, via o mundo com uma clareza que a vida foi corroendo, acreditava em coisas que o tempo foi desmontando. E ainda assim é essa pessoa — essa versão antiga, aquela sombra de si — que continua sendo cobrada. Continua devendo. Muitos de nós atravessamos os dias sem perceber o exato momento em que certas palavras deixaram de ser escolha para se torna...

O que estamos exatamente prolongando?

Cuidar de quem amamos é um ato de entrega, mas também é um lugar de perguntas difíceis. Compartilho aqui uma reflexão que nasceu no silêncio dos dias, sobre o que a medicina nos deu e o que ela ainda não nos ensinou a lidar. Outro dia, meu pai me perguntou três vezes seguidas que dia era. Entre uma pergunta e outra, esquecia que já tinha perguntado. Minha mãe, no quarto ao lado, chamava alguém para ajudá-la a ir ao banheiro. No telefone, uma atualização sobre meu sogro, frequentador assíduo de hospitais: continua internado, estável. “Estável” é uma palavra que deveria acalmar. Nada disso é raro. E talvez seja exatamente esse o problema. A gente se acostumou a chamar isso de parte da vida que se estende. Como se fosse apenas o efeito colateral de uma conquista: vivemos mais — e pronto. Mas, quando esse “mais” se traduz em repetição sem memória e dependência para o básico, fica difícil tratar tudo como vitória. A vida não só se alongou. Ela mudou de forma. Ganhamos tempo, mas n...

Cada um no seu mundo, todos no mesmo caos

Há um cansaço que o sono não resolve. Não é o cansaço de ter feito muito. É o cansaço de não ter conseguido parar de processar. Você acorda, pega o celular antes mesmo de estar completamente acordado, e em dois minutos já passou por uma guerra, uma opinião furiosa, uma tragédia, uma futilidade e um gráfico econômico que contradiz o que você leu ontem. Tudo com o mesmo brilho, a mesma moldura, a mesma urgência fabricada. Não há sinal do que é central e do que é ruído. Isso não acontecia assim. Não porque o mundo fosse mais simples — a dor e o caos sempre estiveram lá. Mas havia estruturas que faziam parte do trabalho antes que a informação chegasse até você. A imprensa selecionava e hierarquizava. As instituições transformavam conflitos em processos com alguma previsibilidade. A ciência e os especialistas funcionavam como referências de validação. A escola não apenas transmitia conteúdo — formava critérios de leitura da realidade. As tradições familiares e culturais ofereciam cont...

A Versão de Nós que Circula

É uma das ideias mais persistentes do pensamento humano: o que somos "por dentro" e o que nos tornamos "por fora" não coincidem. Com ela vem uma expectativa quase nunca questionada — a de que seja possível existir por inteiro no mundo, como se a vida social fosse apenas o espaço onde uma identidade previamente formada se torna visível. Quando isso não acontece, supõe-se perda, distorção, concessão. Como se houvesse, em algum lugar, uma versão íntegra de cada um que não consegue chegar até aos outros. A culpa, conforme a tradição, recai ora sobre a sociedade — as suas normas, as suas instituições, o peso invisível das estruturas que moldam o sujeito antes de ele ter consciência disso —, ora sobre o próprio indivíduo, a sua covardia, o seu autoengano, a sua recusa em assumir quem é. Em ambos os casos, pressupõe-se que havia algo, e que foi deformado. Mas talvez o erro esteja antes disso. A ideia de corrupção ou distorção só faz sentido se o mundo fosse capaz de re...