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A Versão de Nós que Circula

É uma das ideias mais persistentes do pensamento humano: o que somos "por dentro" e o que nos tornamos "por fora" não coincidem. Com ela vem uma expectativa quase nunca questionada — a de que seja possível existir por inteiro no mundo, como se a vida social fosse apenas o espaço onde uma identidade previamente formada se torna visível. Quando isso não acontece, supõe-se perda, distorção, concessão. Como se houvesse, em algum lugar, uma versão íntegra de cada um que não consegue chegar até aos outros.

A culpa, conforme a tradição, recai ora sobre a sociedade — as suas normas, as suas instituições, o peso invisível das estruturas que moldam o sujeito antes de ele ter consciência disso —, ora sobre o próprio indivíduo, a sua covardia, o seu autoengano, a sua recusa em assumir quem é. Em ambos os casos, pressupõe-se que havia algo, e que foi deformado.

Mas talvez o erro esteja antes disso. A ideia de corrupção ou distorção só faz sentido se o mundo fosse capaz de receber o que cada um é por inteiro — e não é. Cada pessoa carrega uma densidade interna feita de contradições simultâneas, intenções sobrepostas, impulsos que ainda não se estabilizaram. Não se trata apenas de dificuldade de expressão. Trata-se de um volume de complexidade que, mesmo exposto, não poderia ser absorvido. O que se perde na passagem para o mundo não foi deformado pela sociedade nem traído pelo indivíduo — simplesmente excede o que qualquer sistema de relações consegue processar.

A vida social não opera com profundidade. Opera com equivalências.

Um gesto passa a representar uma intenção.

Uma escolha passa a definir uma posição.

Uma repetição passa a sugerir um caráter.

Não porque isso seja rigoroso, mas porque é suficiente e possível. Se cada ação tivesse de ser acompanhada pela totalidade das suas motivações, a ação perderia eficácia. Se cada pessoa tivesse de ser compreendida em toda a sua extensão antes de qualquer resposta, a resposta nunca viria. A convivência exige compressão — e a compressão exige perda.

Essa perda não é um acidente. É a condição.

O que circula socialmente não são pessoas, mas versões operacionais — configurações suficientemente estáveis para serem reconhecidas, suficientemente simples para serem integradas. Essas versões não são falsas. São funcionais. Mas o funcional não coincide com o completo, e essa diferença, com o tempo, deixa de ser percebida. A versão que circula passa a ser tratada como equivalente ao original. Não por erro deliberado, mas porque a vida não se sustenta sobre aquilo que não pode ser manuseado.

É aqui que o problema muda de escala.

Não se trata apenas de sermos mal compreendidos pelos outros. Trata-se de que a própria estrutura da convivência exige que aquilo que somos não entre inteiramente em circulação — e que essa exclusão seja, e

m grande medida, invisível para quem a opera. O mundo não nos simplifica apesar de nós. Simplifica-nos como condição de nos incluir.

O excedente não desaparece. Continua a existir, mas fora do mundo comum — sem forma reconhecível, sem endereço social, sem possibilidade de resposta. É precisamente esse resíduo irredutível que impede qualquer coincidência entre o que somos e o que circula de nós. E é também ele que torna a pergunta pela integridade simultaneamente legítima e irresolúvel.

Talvez, então, a questão não seja como preservar a integridade dentro do mundo social. Seja como viver com o fato de que essa integridade nunca foi compatível com ele — e que o reconhecimento disso não é resignação, mas o único ponto de partida honesto.

Não porque algo falhou. Mas porque a possibilidade de convivência e a possibilidade de sermos inteiros nunca estiveram, estruturalmente, do mesmo lado.



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