Há um cansaço que o sono não resolve.
Não é o cansaço de ter feito muito. É o cansaço
de não ter conseguido parar de processar. Você acorda, pega o celular antes
mesmo de estar completamente acordado, e em dois minutos já passou por uma
guerra, uma opinião furiosa, uma tragédia, uma futilidade e um gráfico
econômico que contradiz o que você leu ontem. Tudo com o mesmo brilho, a mesma
moldura, a mesma urgência fabricada. Não há sinal do que é central e do que é
ruído.
Isso não acontecia assim.
Não porque o mundo fosse mais simples — a dor e o
caos sempre estiveram lá. Mas havia estruturas que faziam parte do trabalho
antes que a informação chegasse até você. A imprensa selecionava e
hierarquizava. As instituições transformavam conflitos em processos com alguma
previsibilidade. A ciência e os especialistas funcionavam como referências de
validação. A escola não apenas transmitia conteúdo — formava critérios de
leitura da realidade. As tradições familiares e culturais ofereciam
continuidade, uma sensação de que o presente fazia parte de uma narrativa mais
longa do que ele mesmo.
Nenhuma dessas estruturas era neutra. Tinham
falhas, interesses, pontos cegos. Mas cumpriam uma função que raramente era percebida
justamente porque funcionava: o mundo chegava a você parcialmente organizado.
Isso foi se desfazendo. Não de uma vez, mas por
acúmulo — erros reiterados, distância crescente entre essas estruturas e a vida
concreta das pessoas, sensação de que elas não representavam mais a realidade
como era vivida. A confiança foi cedendo. E quando a confiança cede o suficiente,
a função organizadora perde eficácia.
O que veio depois foi apresentado como liberdade.
Sem intermediários obrigatórios, cada pessoa
poderia ser seu próprio editor, seu próprio árbitro, seu próprio intérprete do
mundo. É uma ideia sedutora — e não inteiramente falsa. Mas carrega uma
crueldade que só aparece com o tempo: ela transfere para o indivíduo uma tarefa
que antes era distribuída pela civilização inteira. A tarefa de decidir,
sozinho e continuamente, o que é verdade, o que é relevante, o que merece
atenção e o que pode ser ignorado.
E isso acontece enquanto o fluxo não para.
Não se trata apenas de ter mais informação.
Trata-se de ter que organizar a informação enquanto ela ainda está chegando —
sem pausa suficiente para consolidar o que já foi visto, sem distância para
avaliar o que acabou de passar.
A mente não suporta esse vácuo sem reagir. Ela
não para de tentar organizar — não pode. Mas se adapta. E essa adaptação não
acontece ampliando a capacidade de processar; acontece reduzindo o que é
tratado como essencial. O pensamento se torna mais rápido, mais dependente de
sinais imediatos, mais guiado por atalhos que prometem coerência sem exigir o
custo da dúvida.
Na prática, isso aparece de formas quase
imperceptíveis.
Você se apega mais rapidamente a uma explicação
que “fecha” melhor, mesmo sem ter certeza. Descarta uma informação não porque a
analisou até o fim, mas porque ela desorganiza algo que parecia fazer sentido.
Sente um alívio imediato quando encontra uma narrativa clara — mesmo que ela
simplifique demais o que está em jogo.
Esses atalhos não são uma falha moral. São uma
resposta razoável a uma condição de sobrecarga. O problema é que, ao simplificar
o mundo para torná-lo manejável, perde-se exatamente a complexidade que
permitiria compreendê-lo melhor. E como cada pessoa constrói esses atalhos a
partir de sua própria experiência, eles não convergem. Cada um passa a habitar
uma coerência que faz sentido por dentro, mas que não se encaixa facilmente com
as dos outros.
O resultado não é apenas divergência de opiniões.
É um desencontro mais profundo — sobre o próprio
modo de ver o real. Não discordamos apenas sobre o que as coisas significam; discordamos
sobre quais coisas existem, sobre o que conta como evidência, sobre o que
merece ser levado a sério. Como se cada pessoa estivesse operando a partir de
uma versão diferente do mundo.
E isso tem um efeito de retorno.
Quanto mais versões diferentes da realidade
circulam, mais difícil se torna confiar em qualquer uma. Quanto mais difícil
confiar, mais o indivíduo recua para seus próprios critérios. E quanto mais ele
depende apenas de si, mais isolado fica nessa tarefa — e mais vulnerável às
simplificações que ela exige.
O ciclo se fecha sobre si mesmo.
E o que esse ciclo produz, visto de fora, é algo
mais difícil de definir do que caos ou instabilidade.
O mundo não se torna apenas mais confuso. Ele se
torna menos legível como algo compartilhado. A sensação crescente não é de que
as pessoas discordam — é de que habitam versões diferentes do real, com
horizontes que não se cruzam. O "nós" que tornava possível pensar em
projetos comuns, em responsabilidades coletivas, em futuros negociados, vai se
estreitando. Não desaparece de uma vez. Mas se retrai para círculos cada vez
menores — aqueles que já veem o mundo da mesma forma que nós.
O que se perde, nesse processo, não é apenas a
capacidade de coordenar. É algo anterior: a possibilidade de reconhecer o outro
como alguém que, apesar de tudo, está tentando organizar o mesmo mundo.
Talvez o que torne tudo isso difícil de nomear
seja justamente isso: não se trata de um problema que está "lá fora",
no mundo, esperando uma solução externa. Trata-se de algo que acontece dentro
de cada pessoa — uma mudança na posição que cada um ocupa diante da realidade.
Fomos colocados, um a um, diante de uma tarefa
para a qual nunca houve preparação completa: produzir ordem a partir de
fragmentos, em tempo real, sem parar.
E o mais incômodo não é que essa tarefa seja
difícil.
É que ela não pode ser recusada. Mesmo quando não
conseguimos organizar o mundo de forma satisfatória, continuamos sendo
obrigados a agir dentro dele — a escolher, a responder, a nos posicionar. A
ausência de organização não suspende a necessidade de viver.
O que muda, então, é a qualidade do chão sob os
pés.
Não colapsamos de forma visível. Continuamos
funcionando, opinando, decidindo. Mas fazemos isso, muitas vezes, a partir de
uma base mais instável — mais apressada, mais frágil, mais dependente de
certezas que precisamos fabricar porque não temos mais de onde recebê-las.
E talvez seja por isso que o cansaço persiste.
Não
é apenas o mundo que não para.
É a sensação de estar sempre tentando alcançá-lo —
como se a compreensão viesse sempre um instante depois do necessário.

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