A vida acontece sem pedir licença para fazer sentido. As coisas vêm primeiro — e só depois a gente tenta entender o que, afinal, aquilo foi.
Quase como se viver fosse sempre um pouco anterior a se compreender.
Esse esforço de organizar o vivido é o que podemos chamar de narrativa de
vida — não uma história que contamos, mas a forma como mantemos alguma
continuidade sobre quem somos enquanto tudo está acontecendo.
A narrativa de vida não existe para ser perfeitamente verdadeira. Ela existe
para ser suficiente.
Suficiente para que suas escolhas não pareçam aleatórias.
Suficiente para que o passado não pareça desconectado.
Suficiente para que você ainda se reconheça no que faz.
Mas há momentos em que essa narrativa falha.
Às vezes de forma lenta, quase imperceptível.
Mas às vezes de forma abrupta — como quando algo acontece e, de repente, a
explicação que você sempre usou simplesmente não serve mais.
Não é que ela esteja errada.
É que ela deixa de dar conta.
Diante disso, surge uma pressa silenciosa: a de reorganizar tudo o mais
rápido possível.
Encontrar uma nova explicação.
Reinterpretar o que aconteceu.
Fechar a lacuna.
Não por vaidade, mas porque permanecer sem sentido claro desorganiza mais do
que parece.
Mas nem sempre esse fechamento acontece.
E o que aparece, nesse intervalo, é algo difícil de nomear — uma espécie de
confusão que não é só falta de entendimento, mas falta de lugar.
Você continua vivendo, mas sem saber exatamente o que suas ações dizem sobre
você.
Sem saber se o que fez foi coerente, necessário ou apenas inevitável.
Não é só dúvida. É uma perda de referência sobre si mesmo.
E talvez seja justamente aí que algo começa a mudar.
Não quando uma nova narrativa de vida surge —
mas quando a antiga se perde, a nova ainda não existe,
e, mesmo assim, você não corre para preencher esse vazio imediatamente.
O crescimento pode começar nesse ponto pouco reconhecido:
na perda de uma explicação,
na confusão que se segue,
e na capacidade — quase silenciosa — de suportar esse estado sem se apressar em
resolvê-lo.
A gente costuma reconhecer o crescimento olhando para trás, quando tudo já
parece fazer sentido de novo.
Mas talvez ele não tenha acontecido ali.
Talvez tenha acontecido antes —
no momento em que nada fazia sentido,
e, ainda assim, você continuou.
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