A gente costuma olhar para trás e pensar que poderia ter feito diferente.
Que dava para ter dito outra coisa.
Que dava para ter saído antes.
Que dava para ter insistido mais.
Essa sensação é quase inevitável — como se, naquele momento, houvesse um
leque aberto de possibilidades, e você simplesmente escolheu uma delas.
Mas essa sensação parte de uma suposição implícita:
a de que todas aquelas opções estavam realmente disponíveis para você
naquele momento.
E nem sempre estavam.
A gente vive apoiado numa espécie de continuidade interna — uma forma de se
reconhecer no que faz, de manter alguma coerência ao longo do tempo.
Não é algo que você decide conscientemente.
Mas está ali, moldando o que parece possível… e o que simplesmente não entra em
consideração.
Em muitos momentos, a escolha não acontece entre todas as opções possíveis.
Ela acontece entre as opções que fazem sentido para quem você acredita ser.
Não é que as outras não existam.
É que elas não parecem viáveis.
Não parecem suas.
Não parecem sustentáveis.
E, muitas vezes, o que sobra é o que você já conhece —
mesmo quando esse conhecido não te leva para onde você gostaria.
E, olhando de fora, tudo isso parece escolha.
Ficar quando já não fazia sentido.
Sair antes de tentar mais.
Dizer algo que você já sabia que diria.
Repetir um padrão que você jurava que não repetiria.
Tudo isso, por fora, se parece com decisão.
Mas, por dentro, a experiência costuma ser outra.
Não era exatamente uma escolha livre entre alternativas.
Era o ponto onde você só conseguia ir até ali.
Como se certas possibilidades existissem —
mas não fossem habitáveis por você naquele momento.
Talvez a gente não escolha entre tudo o que poderia fazer.
Talvez a gente escolha entre o que consegue sustentar sem deixar de se
reconhecer.
E, muitas vezes, isso é bem mais estreito do que parece.
Não escolhemos o que fazemos.
Escolhemos qual história nos permite continuar sendo alguém depois do que
fizemos.
E isso é responsabilidade —
mas não a de quem poderia ter feito qualquer coisa e escolheu errado.
É a responsabilidade de quem só conseguia ir até ali
e agora precisa decidir o que faz com isso.
Porque reconhecer o limite não é absolvição.
É o começo de outra coisa.
Talvez a pergunta, olhando para trás, não seja: por que eu não fiz
diferente?
Mas: o que esse limite diz sobre quem eu estava sendo —
e quem eu ainda posso ser?
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