Cuidar de quem amamos é um ato de entrega, mas também é um lugar de perguntas difíceis. Compartilho aqui uma reflexão que nasceu no silêncio dos dias, sobre o que a medicina nos deu e o que ela ainda não nos ensinou a lidar.
Outro dia, meu pai me perguntou três vezes seguidas que dia era. Entre uma
pergunta e outra, esquecia que já tinha perguntado. Minha mãe, no quarto ao
lado, chamava alguém para ajudá-la a ir ao banheiro. No telefone, uma
atualização sobre meu sogro, frequentador assíduo de hospitais: continua
internado, estável.
“Estável”
é uma palavra que deveria acalmar.
Nada disso é raro. E talvez seja exatamente esse o
problema. A gente se acostumou a chamar isso de parte da vida que se estende.
Como se fosse apenas o efeito colateral de uma conquista: vivemos mais — e
pronto.
Mas, quando esse “mais” se traduz em repetição sem
memória e dependência para o básico, fica difícil tratar tudo como vitória. A
vida não só se alongou. Ela mudou de forma.
Ganhamos tempo, mas não na mesma medida em presença ou
autonomia. O que cresceu com mais consistência foi a duração do desgaste.
Meu pai está aqui. Mas já não sabe bem onde está. Minha
mãe está aqui. Mas já não consegue atravessar o dia sozinha. Meu sogro está
aqui. Mantido.
Em todos
os casos, a vida continua. Mas o que exatamente está sendo preservado?
A medicina fez o que prometeu: adiou o fim. O que não
fizemos foi pensar no que fazer com esse tempo a mais quando ele vem acompanhado
de perda contínua.
Viver mais, para quê?
A gente evita dizer isso em voz alta porque parece
duro. Parece ingratidão. Parece que estamos desistindo de alguém. Mas talvez o
erro esteja justamente em tratar qualquer extensão como um bem automático.
Não é.
Entre um fim rápido e um fim arrastado, a escolha deixa
de ser teórica quando você está dentro dela. Quando a identidade começa a
falhar, prolongar já não é necessariamente preservar. Às vezes, é apenas adiar.
Mais
tempo, por si só, não é uma conquista. Em certos casos, é apenas a extensão de
um fim que já começou.
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