Há dias em que só percebo o que estou vivendo depois de já estar dentro disso há algum tempo. Não há aviso, nem passagem clara entre um estado e outro. Apenas um instante qualquer em que noto: já não sou exatamente o mesmo de antes, embora não consiga dizer quando deixei de ser.
O mais estranho não é mudar. É não ter visto a
mudança acontecer.
Como se a vida corresse um pouco à frente do
olhar que tenta acompanhá-la.
No cotidiano, esse atraso aparece de forma
discreta. Uma resposta que sai mais curta do que deveria. Um silêncio que se
instala sem intenção. Um cansaço que não foi percebido enquanto crescia, apenas
reconhecido quando já se tornou parte do corpo.
Nada disso chega como evento. Chega como
continuidade.
E, quando tento entender, a explicação sempre vem
depois. Tarde o suficiente para já não tocar exatamente o que aconteceu, mas
apenas uma versão dele, já um pouco afastada, já ligeiramente reorganizada.
É assim que começamos a construir sentido: sobre
o que já não está mais inteiro.
Uma conversa vira origem de um estado. Um dia
vira explicação de um humor. Um gesto isolado ganha o peso de causa. Não porque
isso seja necessariamente verdadeiro, mas porque precisamos dar forma ao que,
sem isso, seria apenas fluxo.
Ainda assim, algo sempre escapa.
Há uma espécie de intervalo que não consigo
atravessar. Entre o que acontece e o que consigo reconhecer, existe um pequeno
atraso, como se a consciência chegasse sempre depois do instante em que deveria
ter estado presente.
E nesse atraso, o vivido já se reorganizou.
Não vemos o que está acontecendo enquanto
acontece. Vemos o que restou quando já começou a mudar.
Talvez seja por isso que a sensação de “eu” nunca
pareça exatamente coincidir com o que está sendo vivido. Ele surge como uma espécie
de costura posterior, unindo pedaços que já não estão mais no mesmo lugar.
Não há um centro fixo que observa tudo em tempo
real. Há apenas esse movimento contínuo de reorganização do que acabou de
passar sem ser percebido.
E quanto mais tento me alcançar no presente, mais
percebo que já estou ligeiramente adiante de mim mesmo — ou ligeiramente atrás,
nunca exatamente onde imagino estar.
Talvez não haja outro modo de existir senão esse:
sempre um pouco deslocado de si.
E, no momento em que penso ter me visto, já não
sei mais se era aquilo mesmo.

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