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O custo do desenvolvimento econômico: a distância entre as famílias

Frequentemente, escuto observações sobre a calorosa hospitalidade e amabilidade das pessoas no Nordeste do Brasil, em contraste com a percebida reserva nas cidades do Sudeste. Há também a ideia comum de que em localidades menores, as interações são mais calorosas e permeadas por uma humanidade mais evidente. Além disso, é comum ouvir comentários de que em países ocidentais do Hemisfério Norte, geralmente considerados mais desenvolvidos, as relações pessoais podem parecer mais distantes, e os laços familiares podem ser percebidos como menos efusivos. Isso nos leva a ponderar: será verdade que estamos destinados a fazer uma escolha entre o desenvolvimento econômico e as relações familiares e amizades próximas? Não seria possível conciliar o desenvolvimento econômico com a proximidade nas relações humanas? Vamos explorar essa questão.

Nos estágios iniciais da evolução, os seres humanos viviam em grupos pequenos, muitas vezes formados por unidades familiares. Esses grupos familiares eram essenciais para a sobrevivência, uma vez que forneciam apoio mútuo na obtenção de alimentos e na proteção contra predadores.

À medida que as sociedades humanas evoluíram, passaram por diferentes estágios de organização social. Inicialmente, muitas eram organizadas em torno de unidades familiares e clãs. No entanto, com o tempo, algumas desenvolveram estruturas mais complexas, como tribos, aldeias e civilizações.

A transição de grupos familiares para formas mais complexas de organização social frequentemente envolveu fatores como desenvolvimento agrícola, aumento da população e mudanças nas relações sociais e econômicas. Isso levou à formação de comunidades mais amplas e à emergência de estruturas sociais mais complexas, onde a organização em torno de unidades familiares individuais deixou de ser a forma predominante.

Conforme as sociedades humanas continuaram a evoluir, testemunhamos a emergência do estado moderno como uma forma avançada de organização social. Este desenvolvimento representou uma mudança significativa em relação às estruturas sociais anteriores, incluindo as organizadas em torno de unidades familiares. 

O surgimento do estado moderno envolveu a consolidação do poder político, a criação de instituições governamentais e a definição de fronteiras geográficas. Ao contrário das sociedades antigas, onde a autoridade muitas vezes era descentralizada e baseada em clãs ou lideranças tribais, o estado moderno centraliza o poder em uma entidade governamental que exerce controle sobre um território específico. As unidades familiares, embora ainda importantes na vida cotidiana, tornaram-se parte de uma estrutura social mais ampla e complexa. 

Porém, nas fases iniciais da formação do estado moderno, muitas sociedades mantiveram as características patrimonialistas, onde o poder foi capturado por um grupo restrito que distribuía cargos e benefícios para familiares e amigos. A transição para o estado moderno nem sempre implicou automaticamente em uma separação clara entre o poder político e os interesses familiares. Podemos dizer que o Brasil, assim como os demais países latino-americanos, estão, em diferentes graus, na fase de separação entre o poder político e os interesses pessoais dos governantes, ou seja, os países latino-americanos, para tornarem-se mais desenvolvidos economicamente, precisam evoluir para um estado baseado na meritocracia em substituição à distribuição de poder a familiares e amigos. 

No entanto, a transição para uma sociedade mais orientada pela meritocracia altera a natureza das relações familiares, tornando-as mais institucionais em comparação com as relações emocionais mais proeminentes em sociedades patrimonialistas. 

Na meritocracia, onde as oportunidades e benefícios são distribuídos com base em méritos individuais e critérios objetivos, as relações familiares são menos centrais. Em vez disso, a ênfase recai sobre a competência e o desempenho individual. 

Enquanto uma sociedade patrimonialista enfatiza relações familiares mais emocionais e pessoais, a meritocracia leva a uma abordagem mais institucional, onde as relações familiares desempenham um papel de apoio e desenvolvimento mais pragmático na busca por objetivos individuais e profissionais. 

A evolução para uma sociedade mais justa e desenvolvida passa por uma transição do patrimonialismo para a meritocracia e com isso uma transformação nas relações familiares. Essa transformação não reflete apenas uma mudança na distribuição de oportunidades, mas também redefine o papel da família na busca por objetivos individuais e coletivos, implica numa adaptação da família às demandas de uma estrutura social mais orientada pelo mérito, pelos critérios objetivos e pelo individualismo. É uma troca complexa, onde ganhamos em termos de igualdade de oportunidades, eficiência e desenvolvimento econômico, mas, ao mesmo tempo, vemos uma reconfiguração das relações familiares. Daí a nossa percepção de que as relações familiares nos países mais ricos são menos calorosas do que no Brasil, o mesmo acontecendo no Nordeste em relação ao Sudeste brasileiro ou nas cidades menores em relação às maiores. 

É importante destacar que essa reconfiguração não diminui a importância da família, mas a adapta à nova dinâmica social. A família continua a desempenhar um papel crucial na vida das pessoas, mas seu papel é mais voltado para o suporte mútuo e desenvolvimento individual em um contexto meritocrático. Assim, a busca por uma sociedade mais justa e desenvolvida implica em transformações profundas não apenas nas instituições, mas também nas relações familiares, numa busca constante pelo equilíbrio entre eficiência social e laços afetivos. 

Não se pode desprezar, entretanto, o inevitável desgaste da função da família como provedora de apoio emocional e social para os seus membros. Além disso, a reconfiguração das relações familiares pode levar ao aumento da solidão e da depressão. 

Para reduzir os efeitos colaterais negativos deste distanciamento familiar são necessárias políticas públicas para explorar a possibilidade de conciliar o desenvolvimento econômico com relações familiares mais próximas e promover o equilíbrio entre eficiência social e laços afetivos. 

Por exemplo, investir em programas de flexibilidade no trabalho, como horários mais flexíveis e a promoção do trabalho remoto, pode proporcionar às famílias maior tempo de convívio. 

Além disso, incentivar a criação de espaços comunitários e atividades culturais que fortaleçam os laços sociais pode ser uma estratégia eficaz. Essas iniciativas não apenas promovem a coesão social, mas também proporcionam oportunidades para as famílias se envolverem em atividades em conjunto. 

Outra abordagem seria fomentar programas de apoio à parentalidade, oferecendo licenças parentais mais extensas e acessíveis, creches de qualidade e suporte para equilibrar as demandas profissionais e familiares. Dessa forma, os pais podem desfrutar de uma maior participação na vida familiar, mitigando o impacto do distanciamento. 

É imperativo que as políticas públicas abordem essas questões de maneira abrangente, considerando as complexidades das mudanças sociais e econômicas. No entanto, é importante ressaltar que essas e outras medidas adotadas nos países desenvolvidos não se mostraram suficientes para resolver o problema de forma definitiva. 

No entanto, existe a possibilidade de que a evolução das relações familiares não seja necessariamente um processo unidirecional como presenciamos até o momento. É possível que, em um mundo em constante mutação, em algum momento no futuro, as relações familiares passem a ser mais importantes e centrais na vida das pessoas, mesmo em sociedades desenvolvidas. 

Por ora, em prol de um país socialmente mais justo e do desenvolvimento econômico, parece inevitável renunciar à natureza das relações familiares da forma como conhecemos hoje no Brasil.

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