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A doce fraude do ganho fácil

Ultimamente, tenho a sensação de que o mundo virou uma grande startup. Acordo todos os dias esperando um investimento divino, um capital de risco celestial que transforme meu cotidiano em um caso de sucesso. Mas o máximo que consigo é fazer o café sem derramar. Enquanto isso, um rapaz de 19 anos cria um aplicativo que conecta pessoas que perderam meias e vende a ideia por bilhões. Não é inveja. É antropologia. Estou genuinamente fascinado por esse novo ecossistema em que tudo pode dar certo — menos o razoável. As grandes fortunas agora nascem do nada, florescem em semanas e se multiplicam como coelhos digitais. As empresas com séculos de história, fábricas, terrenos, navios, máquinas, pessoas — todas parecem figuras românticas de um passado artesanal. O futuro, ao que parece, pertence a quem não sua. E lá estou eu, assistindo a tudo, com a dignidade dos que ainda acreditam em currículos. Lembro do tempo em que o sucesso era um processo — e não um sorteio transmitido em tempo real. ...

A Pequena Vitória da Maturidade

A dor é impiedosa. Ela chega sem aviso, rasga nossas certezas e deixa feridas que parecem impossíveis de cicatrizar. Muitos atravessam a vida carregando sofrimentos que nunca se transformam, que apenas pesam em silêncio. E, mesmo quando a dor nos molda, não há garantia de alívio; a maturidade, se vier, chega tarde, como um consolo tímido e silencioso. Mas é na maturidade que talvez resida a pequena vitória que a dor nos concede. Ela não apaga a ferida, nem devolve o que se perdeu, mas nos oferece uma forma de olhar para a vida sem sermos completamente arrastados por ela. E, nesse espaço de sobrevivência, surge a possibilidade de escolha, de ternura, de perceber que, apesar das perdas, ainda há algo que podemos proteger — a nós mesmos e o que nos resta de vida.

O Território da Intimidade

Há um território que todos habitamos, mas que ninguém atravessa sem cuidado: o da intimidade. Um espaço sem mapa, onde se escondem pensamentos que não ousamos revelar, desejos que nos envergonham, memórias que guardamos apenas para nós mesmos. É um lugar silencioso, mas poderoso, pois é nele que nos definimos — não pelo que mostramos ao mundo, mas pelo que nos recusamos a mostrar. Agora, imagine que, de repente, esse território fosse invadido. Uma tecnologia capaz de penetrar nas mentes de todos, sem exceção, revelando tudo o que é mais íntimo. Por um tempo breve, talvez apenas alguns dias, nada poderia ser escondido. O que antes era segredo, a sombra pessoal que nos permitia caminhar entre os outros com alguma dignidade, tornaria-se visível. Cada pensamento, cada desejo, cada medo, exposto como se a alma fosse feita de vidro. O impacto inicial seria devastador. Palavras não ditas durante anos saltariam da mente de cada um como fogo. Olhares se cruzariam carregados de segredos que ...

Entre a Cicatriz e a Ferida: A Arquitetura do Arrependimento

Carrego comigo alguns arrependimentos, e há neles uma diferença essencial. Uns me parecem mais leves, porque a vida, generosa, me ofereceu ocasiões semelhantes onde pude escolher de outro modo. É como se tivesse reencontrado antigos cruzamentos do destino e, dessa vez, tomado a estrada certa, resgatando algo de mim que ficara perdido lá atrás. Mas existem outros arrependimentos que não concedem essa trégua: sei que jamais retornarei àquelas encruzilhadas, jamais terei a chance de me testar de novo. Esses permanecem mais pesados, como páginas que não se deixam reescrever. Será que o arrependimento só se desfaz quando a vida nos conduz novamente ao mesmo cenário, oferecendo a chance de corrigir o gesto, alinhar a palavra, estender a mão que antes hesitou? Por vezes me parece que sim, pois essa repetição carrega um sabor de redenção, como se o tempo, generoso e paciente, concedesse ao erro a oportunidade de se transformar em aprendizado vivo. Mas será que o arrependimento se resume a is...

O Tempo, Meu Carrasco, Meu Aliado

O tempo sempre se insinuou em minha vida como uma presença ambígua, um companheiro de passos invisíveis que ora estende a mão para suavizar, ora a recolhe para ferir. Aliado, quando dilui na distância a dor aguda dos dias pesados, quando envolve as feridas num manto de esquecimento e devolve, pouco a pouco, a leveza que parecia perdida para sempre. É ele quem empresta perspectiva às escolhas passadas, quem transforma tragédias em lembranças suportáveis, quem devolve o poder de olhar para trás sem se afogar no mesmo peso. Na presença do tempo há ternura: a promessa silenciosa de que nada permanece tão intenso que não possa, um dia, ser respirado com serenidade. Mas o mesmo tempo que acalenta é também um algoz paciente. Avança com dedos invisíveis sobre o corpo, riscando na pele mapas de sua passagem, retirando da carne a agilidade, da mente a inocência, do olhar a novidade. É ele quem sussurra, a cada aniversário, a contagem regressiva que fingimos não ouvir. Nenhum instante é preserv...

O Que Restou do Amanhã?

Houve um tempo em que o futuro tinha forma. Ainda que incerto, ainda que repleto de surpresas, ele se erguia diante de nós como um baralho cuidadosamente embaralhado: não sabíamos a ordem das cartas, mas conhecíamos cada naipe, cada figura, cada número. Cada passo dado hoje tinha um eco previsível amanhã, e até mesmo o medo ou a esperança carregavam um consolo — sabíamos que todas as possibilidades estavam ali, à espera de serem descobertas. Hoje, tudo mudou. O futuro perdeu substância. Não há cartas sobre a mesa, não há mesa, talvez nem baralho. Apenas um espaço indefinido, um vazio onde tudo pode nascer ou não nascer, e onde qualquer gesto que imaginamos parece se dissolver antes de tocar algo real. Caminhar em direção a ele é sentir os pés deslizarem sobre um chão que desaparece a cada passo, uma corda suspensa sobre o nada, fina, instável e impossível de agarrar. E há uma tristeza silenciosa nesse contraste. A nostalgia não vem apenas de desejar o que se perdeu, mas de perceber...

O Preço de Ser Eu

F ui fiel a mim. Esta frase, que durante tantos anos carreguei como medalha, hoje me escorre pelas mãos como um metal enferrujado. Porque ser fiel a si mesmo, percebo agora, pode ser também uma forma muito sofisticada de prisão. Quando a vida ainda era um campo aberto e promissor, agarrei-me com força àquilo que julguei ser minha essência. Defendi meus gostos, minhas certezas, meus limites. Preservar meu eu me parecia um ato de coragem num mundo feito de concessões. Mas agora, quando olho para trás com os olhos da maturidade — esses olhos que não pedem licença para enxergar o que antes era invisível —, começo a suspeitar que talvez eu tenha errado a dose. É uma ironia quase poética: só quando o tempo já não nos dá tempo é que começamos a desconfiar do eu que escolhemos proteger. A frustração, então, não é apenas por aquilo que não vivemos — é pelo modo como dissemos "não" a tantas possibilidades em nome de uma integridade mal compreendida. Talvez eu devesse ter sido menos l...

O Vazio que Nos Move

Ele não chega com alarde. Nunca chegou. Desde sempre, habita um canto da casa onde morei, da rua por onde voltava sozinho, da cadeira vazia no jantar de domingo. Às vezes se esconde nas dobras do lençol, às vezes caminha ao meu lado, sem pressa, sem pedir nada — apenas presente. Chamá-lo de vazio talvez seja injusto. Ele tem olhos, embora não pisque. Tem braços, embora não abrace. Tem nome, mas nunca o diz. Crescemos juntos. Enquanto eu aprendia a caminhar, ele aprendia a se esgueirar para dentro dos meus silêncios. Quando perdi o que nunca tive, ele foi o primeiro a me dizer, sem palavras, que haveria outras perdas. E que nenhuma delas me destruiria por completo. Com o tempo, deixei de temê-lo. Descobri que ele me acompanha não para me lembrar do que falta, mas para manter vivo o desejo de procurar. Ele não é a ausência em si — é o espaço onde cabem as possibilidades. Não me empurra para frente com promessas, mas me faz mover para que o movimento não cesse. Nos dias de festa, senta-se...

Quem Viveu Por Você Enquanto Você Vivia para o Futuro?

Agora que o tempo se estreita e os dias não são mais promessas, posso finalmente dizer aquilo que evitei a vida inteira:   Eu vivi para o futuro. Como quem trabalha para um patrão que nunca aparece. Fiz planos, sacrifícios, renúncias. Aguentei o insuportável dizendo a mim mesmo: “um dia vai valer a pena”. E esse dia nunca chegou — pelo menos, não da forma que eu esperava.   Houveram momentos bons, claro. Frutos de tudo que construí, pessoas que amei, aprendizados que carrego comigo. Mas o amanhã sempre foi uma miragem na linha do horizonte. Quando parecia que estava perto, já havia se transformado em outro plano, mais distante, mais exigente, mais ameaçador. Era como se o depois estivesse sempre um pouco além do alcance do esforço de hoje.   E eu segui. Segui sem respirar direito. Sem me permitir pausas. Sem perder tempo com bobagens. Porque bobagens não constroem um futuro sólido. E eu queria solidez.   Eu recusei convites, silenciei impulsos, adiei viagen...

A traição necessária

Durante muito tempo, sustentamos a ideia de que amadurecer é acumular experiências, aprender a se defender, tornar-se mais forte. Mas há outro tipo de maturidade — mais secreta, mais solitária — que não se resume a resistir ao mundo, mas a desfazer-se das fantasias com que tentamos, por tanto tempo, proteger-nos dele. Essas fantasias não surgem por acaso. São construídas ao longo da infância e da juventude como andares imaginários sobre os quais conseguimos habitar um mundo que ainda nos é estranho. A criança fantasia que será admirada, aceita, querida por ser quem é. O adolescente sonha com um amor perfeito que o completará, com uma profissão que o resgatará, com uma vida que finalmente fará sentido. Tudo isso não é mentira — é sobrevivência. São as primeiras formas de esperança. Mas o problema das ilusões não é que sejam falsas — é que, um dia, tornam-se insuficientes. Na idade adulta, aprendemos a administrá-las. Não acreditamos mais que a felicidade será perfeita, mas ainda e...