É uma das ideias mais persistentes do pensamento humano: o que somos "por dentro" e o que nos tornamos "por fora" não coincidem. Com ela vem uma expectativa quase nunca questionada — a de que seja possível existir por inteiro no mundo, como se a vida social fosse apenas o espaço onde uma identidade previamente formada se torna visível. Quando isso não acontece, supõe-se perda, distorção, concessão. Como se houvesse, em algum lugar, uma versão íntegra de cada um que não consegue chegar até aos outros. A culpa, conforme a tradição, recai ora sobre a sociedade — as suas normas, as suas instituições, o peso invisível das estruturas que moldam o sujeito antes de ele ter consciência disso —, ora sobre o próprio indivíduo, a sua covardia, o seu autoengano, a sua recusa em assumir quem é. Em ambos os casos, pressupõe-se que havia algo, e que foi deformado. Mas talvez o erro esteja antes disso. A ideia de corrupção ou distorção só faz sentido se o mundo fosse capaz de re...
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