Cuidar de quem amamos é um ato de entrega, mas também é um lugar de perguntas difíceis. Compartilho aqui uma reflexão que nasceu no silêncio dos dias, sobre o que a medicina nos deu e o que ela ainda não nos ensinou a lidar. Outro dia, meu pai me perguntou três vezes seguidas que dia era. Entre uma pergunta e outra, esquecia que já tinha perguntado. Minha mãe, no quarto ao lado, chamava alguém para ajudá-la a ir ao banheiro. No telefone, uma atualização sobre meu sogro, frequentador assíduo de hospitais: continua internado, estável. “Estável” é uma palavra que deveria acalmar. Nada disso é raro. E talvez seja exatamente esse o problema. A gente se acostumou a chamar isso de parte da vida que se estende. Como se fosse apenas o efeito colateral de uma conquista: vivemos mais — e pronto. Mas, quando esse “mais” se traduz em repetição sem memória e dependência para o básico, fica difícil tratar tudo como vitória. A vida não só se alongou. Ela mudou de forma. Ganhamos tempo, mas n...
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